terça-feira, 20 de março de 2018

A SALVAÇÃO É PELA GRAÇA, MAS NÃO É COMPULSÓRIA


Depois dessa análise exegética, duas coisas ficam em relevo. Em primeiro lugar, a teoria que tentou converter o texto de Hebreus 6.4-6 em um caso meramente "hipotético" não se sustenta. Para firmar-se, essa teoria passou a depender de uma obra de engenharia teológica muito grande, edificando-se sobre fundamentos léxicos e gramaticais inexistentes no texto. Sua principal coluna de sustentação, uma suposta condicionalidade do texto, foi demolida pela redação original do Novo Testamento. Por outro lado, aqueles que defendem que o texto refere-se a "réprobos" não conseguem explicar por que esse "não-salvo", que nunca foi regenerado e que permanece nos seus delitos e pecados tenha tido os mesmos privilégios que são reservados exclusivamente aos salvos. Por que Deus permitiria a esse "não-salvo" receber da parte dEle "iluminação", "provar do dom celestial", "participar do Espírito Santo" e "experimentar a Palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro" para, logo em seguida, ter que jogá-lo no Inferno? Da mesma forma, a tese que tenta "retirar" a apostasia do texto de Hebreus 6,4 6 enfrenta problemas contextuais e semânticos insuperáveis. A própria carta aos Hebreus usa esse termo apostasia em Hebreus 3.12, e os eruditos destacam que o termo grego parapipto usado em Hebreus 6.4- 6 deve ser visto como sinônimo de apostasia que ocorre em Hebreus 3.12 (veja Bruce). Da mesma forma, não há como negar que Hebreus 10.26-29 é uma referência clara àquilo que o autor descreveu em He­ breus 3.12 e 6.4-6, isto é, a queda da fé. De fato, Richard C. Trench, em seu clássico Synonyms of the New Testament, destaca que Hebreus 6.6 "é equivalente ao ekousioshamartánein de 10.26, ao apostenai apo Theouzantos de 3.12".
Em segundo lugar, convém destacar que a linguagem sobre a segurança do crente encontrada em Hebreus não destoa daquela encontrada em outras Escrituras do Novo Testamento. A salvação é pela graça, mas não é compulsória. Somos eleitos no Filho de Deus, mas cabe a nós respondermos à obra santificadora do Espírito Santo (Ef 4.30). Nossa salvação está condicionada a nossa obediência e permanência em Cristo (Cl 2.6). Quem está em Cristo está seguro da vida eterna (1 Jo 1.7; 2.24,28), mas não há segurança alguma para quem se afasta dEle. Esse é o testemunho do autor de Hebreus e dos apóstolos em Gálatas 5.4 e também em 2 Pedro 2.20-22.
Esses fatos estão sintetizados na Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil, que diz:
"Rejeitamos a afirmação segundo a qual 'uma vez salvo, salvo para sempre', pois entendemos à luz das Sagradas Escrituras que, depois de experimentar o milagre do novo nascimento, o crente tem a responsabilidade de zelar pela manutenção da salvação a ele oferecida gratuitamente: 'Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo' (Hb 3.12). Não há dúvidas quanto à possibilidade do salvo perder a salvação, seja temporariamente ou eternamente. Mediante o mau uso do livre arbítrio, o crente pode apostatar da fé, perdendo, então, a sua salvação: 'Mas, desviando-se o justo da sua justiça, e cometendo a iniquidade, fazendo conforme todas as abominações que faz o ímpio, porventura viverá? De todas as justiças que tiver feito não se fará memória; na sua transgressão com que transgrediu, e no seu pecado com que pecou, neles morrerá' (Ez 18.24). Finalmente, temos a advertência de Paulo aos coríntios: 'Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia' (1 Co 10, 12). Aqui, temos mencionada a real possibilidade de uma queda da graça. Assim, cremos que, embora a salvação seja oferecida gratuitamente a todos os homens, uma vez adquirida, deve ser zelada  e confirmada" .

Extraído do livro: A supremacia  de  Cristo , Fé, esperança  e ânimo na carta aos Hebreus.

José Gonçalves.


FIRMES EM CRISTO, POREM SEMPRE ALERTA!

Como foi dito no início deste texto, o autor de Hebreus quer ver em seus leitores ânimo, esperança e fé em tempos de apostasia. Ele tem convicções espirituais fortes, mas não via essa mesma convicção em seus leitores. Foi preciso ele dar um tratamento de choque, um grito de alerta, para acordar seus leitores. Porém, quando fez isso, ele não estava encenando. A queda da fé era uma possibilidade a ser considerada com toda a seriedade.
Consciente de que fora duro em sua exortação, o autor a eles uma palavra de ânimo: "Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falamos" (Hb 6.9).
Alguns comentaristas apegam-se ferrenhamente a esse texto como uma última tentativa para negar a possibilidade do fracasso espiritual relatado em Hebreus 6.4-6. Eles argumentam que, nessa passagem, estaria a prova de que tudo o que o autor descreveu sobre a queda na fé não passa de mera suposição. No entanto, se esse fosse o caso, como já destacou Leon Morris em outros termos, tudo o que o autor usou como alerta para seus leitores até aqui não passaria de encenação, e todas as advertências seriam resumidas a uma farsa. O texto, porém, está longe disso. O autor não está levantando hipótese alguma, mas, sim, tratando de uma realidade extremamente séria: o perigo de cair da graça. Grant Osborne, in loco, observa que essas palavras do autor de Hebreus

"não justificam uma visão hipotética da apostasia, como se o perigo fosse afirmado apenas como um meio de estimulá-los a perseverar, mas que nunca poderia acontecer. O perigo é muito real, mas o autor encoraja-os com uma declaração positiva sobre a sua verdadeira posição em relação a Cristo".

Extraído do livro: A supremacia  de  Cristo , Fé, esperança  e ânimo na carta aos Hebreus.

José Gonçalves.



RUACH HAKODESH - UMA BENÇÃO SOMENTE PARA CRENTES


- Tendo se tornado participante do Espírito Santo (particípio grego: genethentas). Em terceiro lugar, os que podem cair da graça são aqueles que renunciaram a esse dom. É evidente que essa advertência só tem validade para os crentes regenerados, visto que ninguém pode tornar-se participante do Espírito Santo sem que antes nasça de novo (Jo 14.17; Rm 8.9). O expositor David H. Stern, na obra Comentário Judaico do Novo Testamento, destaca que "essa terminologia faz com que seja impossível que o autor esteja falando de pseudocrentes, porque apenas verdadeiros crentes se tornam participantes no Ruach HaKodesh" .




Extraído do livro: A supremacia  de  Cristo , Fé, esperança  e ânimo na carta aos Hebreus.
José Gonçalves.