As palavras
de abertura, No princípio, era o Verbo,
e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (1), lembram ao leitor a
passagem de Gênesis 1.1. Não há maneira mais apropriada de iniciar o relato do
maior acontecimento da história. Foi aqui que a religião hebraica começou — “No
princípio Deus...” (cf. 1 Jo 1.1). Assim como Deus é eterno, o Verbo também o
é. Ele é “o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim” (Ap 1.8). Os verbos ser e estar, usados neste primeiro
versículo, descrevem uma ação contínua, sem levar em consideração o princípio
ou o fim. Como diz Westcott, “O tempo verbal imperfeito do original sugere
nesta relação, até onde a linguagem humana pode ir, a noção de uma existência
supratemporal absoluta”.2
O Verbo
eterno é descrito como com Deus. A
preposição com perde um pouco da
força da palavra original, que indica “movimento voltado para” ou “face a
face”. Assim, o Verbo está em um
relacionamento mais íntimo com Deus.
A última
oração, e o Verbo era Deus, levanta
a questão: Qual é a natureza essencial do Verbo? Tem havido muitas tentativas
de identificar o Verbo com a razão
universal dos estóicos, ou com o uso de Platão da “palavra”, ou até mesmo com o
conceito hebraico, às vezes personalizado, de sabedoria. No entanto, todas
mostram-se insuficientes em relação ao uso que João faz do termo. Quando João
escreveu E o Verbo era Deus, queria
que o leitor entendesse que a natureza essencial do Verbo é a Divindade, Deus
falando ao homem. E uma descrição da “auto-revelação de Deus”.3 Além disso, no
grego, o artigo definido não é usado com a palavra Deus (theos). A omissão do artigo definido enfatiza o tipo ou a
qualidade. Assim, a natureza essencial do Verbo é descrita. O retrato que João
faz do Verbo, como eterno e como Deus, deve servir para responder àqueles que
insistem na idéia de que o Verbo foi apenas uma criatura primogênita divina!
O versículo
2 reitera enfaticamente a eternidade do Verbo. Quando traduzido literalmente,
lê-se: “Este (o Verbo) estava no princípio face a face com Deus”.
Quatro
relações do Verbo são descritas em 1.3-5.
1. Com o
Mundo
Todas as coisas foram feitas por ele,
e sem ele nada do que foi feito se fez (3; cf. SI 33.6,9; Cl 1.15-17; Hb 1.2). Aúltima oração, que
é enfática, foi acrescentada para se guardar contra as falsas doutrinas do
século I “que atribuíam a origem de certas existências a criadores inferiores,
ou consideravam a matéria como auto-existente”.4
2. Com a
Vida e a Luz
Nele, estava a vida e a vida era a
luz dos homens (4).
Aqui, o Verbo é visto como a Fonte da vida. A vida biológica vem dele, com
certeza, mas há mais. Regularmente usada neste Evangelho, a palavra vida (zoe, 36 vezes; nunca bios, vida
biológica) se refere à vida “do alto” (3.3), à “vida eterna” (3.15-16; 20:31),
à vida abundante (10.10). Como Ele é a Fonte de toda a vida, também é Ele a
Fonte de toda a luz. A primeira criação do Verbo divino foi a luz (Gn 1.3). Da
mesma forma, o salmista fala da vida e da luz juntas: “porque em ti está o
manancial da vida; na tua luz veremos a luz” (SI 36.9). O Verbo encarnado
descreve a si mesmo como “a luz do mundo” (Jo 8.12). A luz e a vida estão na
ofensiva. A morte está destinada à derrota (11.26); as trevas do túmulo são
dispersadas pela luz penetrante e resplandecente.
3. Com o
Homem
E a vida era a luz dos homens (4). O Verbo é a Revelação pessoal de
Deus aos homens. E pessoal porque procede de Deus e é direcionada aos homens. O
Verbo é “a luz verdadeira, que alumia a todo homem que vem ao mundo” (1.9).
4. Com as
Trevas
E a luz resplandece nas trevas, e as
trevas não a compreenderam (5). O Verbo eterno, em figuras de luz e vida, veio aos homens que estão
em trevas e morte. Por todo o quarto Evangelho, estão os retratos da
conseqüente luta entre a Luz e as trevas, geralmente coroados de vitória pela
Luz, mas às vezes não. Jesus deu vista (luz) a um homem cego de nascença (cap.
9). Ele trouxe Lázaro do túmulo, da morte e das trevas (cap. 11). Mas um que
estava próximo a Ele, Judas Iscariotes, entrou na noite de trevas eternas
(13.30). A palavra traduzida como compreenderam,
significando “entender”, também significa “vencer”. Embora João pudesse ter em
mente ambos os significados, o segundo, juntamente com o tempo aoristo6 do
verbo, é a promessa da vitória definitiva e final para a luz, e para tudo
aquilo que ela representa.