O capítulo
inicial de 1 Tessalonicenses pode ser natural- mente subdividido em três temáticas
centrais:
1) Palavras
de gratidão de Paulo. Gratidão pela vida dos cristãos emTessalônica, pela
preservação da fé destes, mesmo em meio a uma situação adversa complexa, e pelo
desenvolvimento espiritual daqueles irmãos;
2) Um
emocionado testemunho do apóstolo sobre a fé contagiante dos tessalonicenses. O
cristianismo apregoado por Paulo e praticado pelos tessalonicenses
constituiu-se como o fundamento de uma prática de vida restaurada e
inspiradora; e
3) Uma
síntese daquilo que Paulo compreende como natureza, desenvolvimento e
finalidade do evangelho. Ao final desse primeiro capítulo de 1 Tessalonicenses,
o apóstolo apresenta os elementos constitutivos do evangelho que se tornou
fundamento de fé para aqueles cristãos. Analisemos, assim, pormenorizadamente,
cada um desses aspectos do capítulo introdutório da epístola.
O
Cristianismo como Amor Fraterno:
A Saudade de
Paulo e dos Tessalonicenses
Há uma
característica no ministério paulino que, já aqui no seu primeiro texto
epistolar, sobressai-se de maneira bastante desta- cada: Paulo é muito mais que
um pregador itinerante — figura tão comum no ambiente religioso daquela época,
muito em função de uma compreensão apocalíptica daquele contexto histórico que
influenciava, inclusive, o judaísmo da época1 —, ele era um plantador de
igrejas, um pastor.
O
comprometimento de alguém com tal vocação com as pessoas para quem o evangelho
é anunciado é algo muito forte. Não basta apregoar, não é suficiente demonstrar
a razoabilidade do discurso que se anuncia; é necessário mais. O
comprometimento de Paulo com as comunidades que pastoreou e, em especial, Tessalônica,
por ser objeto de nossa análise, envolve dedicação pessoal, atenção,
acompanhamento, mentoria — em suma, discipulado. O cristianismo que Paulo
apregoa àqueles irmãos não teria sentido algum se não fosse vivenciado em
práticas efetivas, que resultassem em efeitos reais tanto na vida dos cristãos
em Tessalônica como do próprio apóstolo. É por isso que as epístolas aos tessalonicenses
podem ser lidas a partir de conceitos como, por exemplo, o anelo pela vida em
comunidade ou a confiança mútua que foi estabelecida nos vários tipos e níveis
de relacionamentos que são identificados nos textos — Deus para com Paulo/Paulo
para com Deus; Paulo para com os membros de sua equipe mis sionária (Silvano e
Timóteo)/Os auxiliares de Paulo e o apóstolo; Deus e os tessalonicenses/Os
tessalonicenses e Deus; Paulo e os tessalonicenses/os tessalonicenses e Paulo;
os tessalonicenses e os auxiliares de Paulo/Os auxiliares de Paulo e os
Tessalonicenses. É bem verdade, como veremos capítulos a frente, que alguns
relacionamentos não estavam desenvolvendo-se bem em Tessalônica; todavia, esse
detalhe aponta, inclusive, para a centralidade dos conceitos de comunhão,
comunidade e fé mútua nas epístolas aos Tessalonicenses. Paulo, ao referir-se a
elementos básicos da fé compartilhada com os tessalonicenses, utiliza-se exaustivamente do plural — não porque esteja
em busca de auto gloriar-se por meio do uso de um plural majestático —, pois,
em Tessalônica, a experiência primitiva de Atos 2.44-46 estava sendo novamente
vivida.
Paulo
lembrava-se do esforço amoroso — que havia entre os tessalonicenses
(1.3). Ele era sofredor e estava disposto a enfrentar os revezes da vida para
testemunhar o novo que Deus estava trazendo àquela comunidade. Não é possível
seguir a Deus sem a consciência de que, diante das situações adversas, devemos
vencer mediante o amor de Deus derramado em nossos corações.
Deve-se
notar que, em 1 Tessalonicenses 1.3, tem-se a primeira menção das três virtudes
teologais — fé, esperança e amor —, tão comuns nos textos paulinos. Sobre a
tradução e interpretação desse versículo, o mesmo Hendriksen traz-nos um
extenso, porém enriquecedor comentário:
As
principais teorias estão melhor representadas pelas várias traduções que têm
sido sugeridas, das quais, apresentamos três:
“Lembrando
sem cessar” (ou outra frase semelhante):
1. “sua obra de fé E labor de amor E paciência de esperança.”
Rejeita-se
esta tradução pela simples razão de fazer pouco ou nenhum sentido. O que é
mesmo uma “paciência de esperança”?
2. “sua obra, isto é, fé E labor, isto é, amor E paciência, isto é,
esperança.”
Além de
haver objeções doutrinárias, rejeitamos esta porque, embora seja
gramaticalmente possível, dificilmente pode ser julgada fiel à ênfase paulina.
Também, o conceito “paciência, isto é, esperança”, é difícil.
3. “sua fé atuante E amor diligente E esperança tenaz.”
Mas a ênfase
aqui é colocada onde não deveria estar, pelo original. As palavras enfatizadas
no original não são a fé, o amor e a esperança, e sim, trabalho, esforço (ou
labor) e firmeza. A nosso ver, a construção gramatical da locução é a seguinte:
Os substantivos “operosidade, diligência e firmeza” estão no genitivo objetivo
e servem para completar o verbo “tendo em mente”. Portanto, a palavra sua
modifica as três: sua operosidade, sua diligência, sua firmeza. Cada um desses
substantivos tem um modificador no genitivo (sentido de posse). A ideia aqui é
que a obra é decididamente uma obra de fé, isto é, uma obra que surge da fé, é
realizada pela fé e revela fé. Não fosse a presença da fé viva, essa obra não
estaria em evidência. E assim ocorre com os outros modificadores: o esforço é
motivado pelo amor (e revela) amor: e a firmeza é inspirada pela esperança (e
evidencia) esperança. (HENDRIKSEN, 2008, p.60)
Defendendo
uma compreensão oposta a de Hendriksen, Staab afirma que:
Os primeiros
frutos [dos tessalonicenses] são a fé, o amor e a esperança, que, entre os fiéis
de Tessalônica, não são apenas um sentimento interior, senão uma força que
penetra e preenche inteiramente suas vidas. Paulo fala da “atividade” da fé, do
“esforço” do amor e da “constância” da esperança. Três termos que expressam
certa gradação ascendente, como a que se dá entre as três virtudes mencionadas.
A fé não chega a converter-se em força ativa senão pelo amor (Gl 5.6), e este
não alcança seu fim próprio enquanto a esperança não tenha a suficiente
vitalidade para poder traduzir-se em constância, resignação e confiança.
(STAAB, p. 23)
Os
argumentos de Staab parecem-nos mais coerentes como possibilidade de tradução e
compreensão hermenêutica do que os de Hendriksen, em face de sua maior
integralidade com aquilo que seria um pensamento paulino como um todo. Como se
dará nos outros textos de Paulo, em que as três virtudes aparecem juntas, a
ênfase conceitual dá-se nestas; sendo que as expressões adjuntas servem para
qualificá-las.
A hipótese
interpretativa de Staab assemelha-se muito a de Tomás de Aquino (1225–74)
(2015, p.34), que, em seu comentário às epístolas aos tessalonicenses,
argumenta que Paulo vê na igreja em Tessalônica uma fé operosa, um amor sofredor
e uma esperança constante.
Duas
naturais contra-argumentações que se podem apresentar a essa hipótese é a de
que, em 1 Tessalonicenses, o pensamento paulino ainda está em contínua
construção; logo, relacionar o que se afirma nesse momento do ministério de
Paulo com todo o corpus
paulinum seria uma inferência impossível de sustentar. Outro
argumento, um tanto quanto mais radical, porém não menos plausível para alguns
especialistas, é a defesa de que todo esforço de sistematização do pensamento
de Paulo é uma operação completamente artificial, uma vez que cada texto tem
seu contexto específico e natureza própria, não podendo, assim, haver qualquer
tipo de hierarquização, interpolação conceitual ou mesmo qualquer tipo de
apropriação semântica intertextual entre os textos paulinos contidos no Novo
Testamento.
Os
Tessalonicenses como Imitadores de Paulo e Exemplo dos Fiéis
Este caráter
positivo do elemento mimético, imitativo, do cristianismo é um conceito
extraído da cultura helênica e, depois, ressignificado por Paulo.4 A
imitação entre os gregos e romanos tinha uma natureza absolutamente limitada,
circunscrita apenas ao entretenimento ou a não criticidade. É por isso que, na
Antiguidade greco-romana, há um esforço para separar a produção de conhecimento
que se propaga por meio da imitação daquela que se fundamenta na reflexão.
O
imitador, é o ator que, de maneira representativa, finge ser quem ele não é.
Tal natureza da mímesis pode ser exemplificada pelo uso obrigatório de máscaras
nas encenações teatrais.
Como se pode
perceber, a imitatio pauli tem
como objetivo comunicar aos tessalonicenses um padrão de vida que se identifique
com Cristo — pois, se o Mestre sofreu e foi perseguido, não há como o destino
dos discípulos ser diferente. Ao contrário do que os críticos contemporâneos
pretendem afirmar, a imitação na teologia de Paulo é um exercício de
“depotencialização”, por meio do qual cada cristão deve assumir sua natureza
frágil em si mesma, porém restaurada e fortalecida pela graça de Deus Pai.
Na verdade,
o padrão não é Paulo, mas Cristo (Ef 5.1). Ao invés de um discurso
hierarquizante, por meio do qual o apóstolo pudesse ascender a um nível não
acessível aos demais indivíduos, aqui em 1 Tessalonicenses — assim como em
outros escritos paulinos —, encontramos um Paulo que se identifica com as
pessoas,
com seus
sofrimentos e agruras cotidianas, convidando-as a um padrão de vida pautado na
simplicidade, alegria e piedade a Deus.
O Testemunho
de Paulo, a Conversão dos Tessalonicenses e a Esperança da Parusia
A parte
final dessa perícope (1 Ts 1.2-10) termina com um resumo da operação do
evangelho entre os tessalonicenses. Foi um movimento que apontou para o
testemunho externo das cidades circunvizinhas, as convicções internas da nova
igreja que a levou a romper com a ordem idolátrica vigente e as promessas
futuras oriundas do evangelho anunciado. Os versículos 9 e 10 subdividem-se
assim, naturalmente, em três partes:
1. O testemunho da população de toda a Macedônia e Acaia sobre a
eficácia da evangelização de Paulo e sua equipe entre os tessalonicenses. Os acontecimentos em Tessalônica tornam-se notórios para além dos
limites da própria cidade. A repercussão sobre os efeitos do poder
transformador do evangelho comove as cidades circunvizinhas. Essa infor- mação
apresentada por Paulo corrobora a tese de que os acontecimentos entre os
tessalonicenses foram divinamente guiados, a ponto de inspirar as igrejas
vizinhas a manter o mesmo nível de perseverança e alegria no evangelho que
aquela recém-fundada igreja desfrutava.
2. O testemunho de Paulo sobre como a conversão dos tessalonicenses
foi algo genuíno. Como já
sabemos, o contexto cultural dos tessalonicenses expunha-os a um panteão,
literal- mente, de deuses; as várias opções de divindades e os cultos das mais
diversas naturezas impunham-se como um elemento de obstáculo ao estabelecimento
de uma fé genuinamente cristã. Todavia, a experiência de salvação dos
tessalonicenses foi algo tão profundo que — tal como ocorreu com os efésios
(ver At 19.19) — eles resolveram abandonar publicamente a idolatria e declarar
exclusivamente Jesus como Senhor. A decisão dos tessalonicenses torna-se mais
radical ainda quando lembramos que o culto ao imperador romano era uma prática
corriqueira e quase que imposta naquela sociedade.
Como nos
afirma Green:
Os
tessalonicenses haviam abraçado o evangelho anti-imperial e estavam sofrendo
por sua lealdade ao “outro rei” chamado “Jesus”. Em sua correspondência com
eles Paulo chama a mensagem que lhes havia pregado de εὐαγγέλιον, palavra
que comumente traduzimos por “boas novas” ou “evangelho”. Naquele contexto de
então este substantivo e verbo afim εὐαγγελίζομαι se usavam em
referência a notícias de vitórias em guerras, as palavras de um oráculo ou as
boas novas de uma boda. [...] Em Tessalônica, cidade que celebrava o poder
imperial no seu templo dedicado a Júlio César e o “filho de deus”
Augusto, εὐαγγέλιον soava nos ouvidos dos habitantes como as “boas
novas” do culto imperial que exaltava o imperador como soberano, mas também
como deus e salvador. (GREEN, 2007, p.10,11)
O rompimento
dos tessalonicenses com a ordem religiosa vigente obviamente desencadeou uma
série de perseguições sobre aquela jovem comunidade; porém, nem mesmo essa
oposição popular e institucional que se arremeteu contra os tessalonicenses
fizeram com que se desviassem do foco de servir ao Senhor Jesus apregoado por
Paulo.
RETIRADO DO LIVRO DE APOIO: A IGREJA DO ARREBATAMENTO.
O Padrão dos Tessalonicenses para estes Últimos Dias
Thiago Brazil
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